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Campos dos Goytacazes, Terça, 09 de Agosto de 2022

Cadeia de comando

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Por DR. JOSE CARLOS TÓRTIMA


José Carlos Tórtima*

Pela voz autorizada de ninguém menos do que o então chefe da Agência Central do SNI (Serviço Nacional de Informações), general Newton Cruz, fica definitivamente comprovada a autoria de militares da ativa na onda de atentados a bomba contra alvos civis que aterrorizaram o Rio de Janeiro entre 27 de agosto de 1980 e 30 de abril de 1981, data do ataque frustrado ao Riocentro, e do qual resultou a morte de um dos terroristas, saindo o outro gravemente ferido.

Nini, como Cruz é conhecido por seus colegas de farda, revelou (11/4) ao jornalista Geneton Moraes, na Globonews, que teria, por conta própria, impedido um novo atentado, em fase de preparação por militares do DOI-Codi do Rio.

Afirma ainda que seu chefe no SNI, general Octávio Medeiros, fora por ele alertado, no mesmo dia da explosão no Riocentro, de que um agente seu presenciara uma reunião, "no DOI do I Exército", na qual se tramava o ato terrorista.

Por fim, tenta o general, em vão, minimizar o episódio, dizendo que seus protagonistas "não queriam ferir ninguém, só marcar presença". Ora, esta presença macabra, em atentados anteriores do mesmo grupo terrorista, resultou na morte de uma pessoa - a secretária Lida Monteiro ao abrir uma carta-bomba dirigida ao presidente da OAB-RJ, Seabra Fagundes - além de ferimentos em outras seis, na Câmara de Vereadores.

Até as telhas do Forte Apache (edifício sede do QG do Exército em Brasília) já sabiam de onde tinham partido os atentados - sobretudo após uma das bombas do Riocentro explodir dentro do carro do capitão Wilson Machado, sobre os joelhos do sargento Guilherme.

Mas os comandos militares sempre negaram enfaticamente o envolvimento de qualquer de seus subordinados nos crimes.

Chegaram, à época, a montar uma farsa grotesca, com capa de IPM (inquérito policial-militar), que concluiu serem o capitão Wilson, e seu cúmplice, morto na explosão, apenas vítimas inocentes.

O fato novo é a revelação de que retransmitira a Medeiros o informe sobre a reunião que tramava explodir o Riocentro.

É altamente improvável que, nesse caso, não tenha Medeiros imediatamente repassado a informação ao então ministro do Exército. E, ao que se saiba, nenhuma providência foi adotada para travar as mãos assassinas dos militares envolvidos nos atentados - tanto que foi preciso que Newton Cruz viesse de Brasília, para fazê-lo. Surge, inevitavelmente, uma sombra de suspeita sobre a participação da cadeia de comando da força nos atentados.

E, para a instituição do Exército brasileiro, cujos atuais integrantes na ativa nada têm a ver com as barbaridades praticadas durante a ditadura, fica a sofrida, mas inadiável, obrigação de finalmente esclarecer à sociedade o que de fato ocorreu.


*José Carlos Tórtima é advogado

Artigo publicado no jornal O Globo, 15 de abril de 2010


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