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Audiência sobre segurança pública gera debates calorosos na Câmara

06 jun 2014, 10h56

Fonte: Site Ururau

“A gente já viu que a violência tem aumentado muito na região e isso está nos deixando apavorados. Então essa audiência é para que possamos encontrar soluções que possam ser implantadas imediatamente, e que ajudarão a por fim nessa onda de violência que assombra a cidade de Campos”. As palavras foram ditas pelo presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Campos, Carlos Fernando Monteiro, o Guru, durante a audiência sobre segurança pública realizada na tarde desta quinta-feira (05/06) na Câmara Municipal da cidade.

Na oportunidade Guru, que presidiu a sessão, apresentou uma proposta, juntamente com o presidente do Rotary Clube Campos São Salvador, Matheus Azevedo Alves, de implantação na cidade de um Disque Denúncia nos moldes do que tem sido feito no Rio de Janeiro, que de acordo com Carlos Fernando, funciona há 20 anos com total eficiência na capital fluminense.

“Todos os esforços nossos estão sendo feitos para que essa ferramenta seja inserida aqui no município. Na próxima terça-feira (10/06) já está agendada uma reunião, onde cada entidade que está aqui hoje poderá indicar um representante. Dessa forma, será formada uma comissão que irá estudar quais são as melhores propostas e a forma como devem ser implantadas esse Disque Denúncia aqui e vamos estar em campo para fazê-las”, informou Guru sendo complementado pelo presidente do Rotary:

“No mês de março realizamos um fórum de segurança pública onde a gente visou discutir o que estaria acontecendo na cidade para levar a esse aumento da criminalidade. A partir desse encontro, incomodados com essa situação, nós vimos a necessidade de um segundo passo, que seria a audiência pública. Essa audiência visa justamente a discussão de sugestões. Nosso objetivo aqui é apresentar ideia, alternativas e sugestões de combate a violência. O Disque Denúncia é uma das ideias que pode melhorar a segurança de nossa cidade”, enfatizou Matheus.

SABINO: "NOSSOS JOVENS ESTÃO EM COMPLETO ABANDONO"
O comandante do 8º Batalhão de Polícia Militar, tenente coronel Antônio Carlos Sabino disse que não será a implantação de um Disque Denúncia que irá resolver a situação caótica em que vive, não só Campos, mas todo o Brasil. Para ele, é preciso que haja integração de forças, pois segurança pública não compete somente as polícias, mas toda a sociedade.

"Como eu vou dizer que um problema complexo como o da segurança pública vai ter solução simplista com um Disque Denúncia que será instalado? Como vou dizer isso, como vou mentir para vocês? Vocês me trouxeram aqui para mentir? Não, então eu preciso falar a verdade e a verdade é dolorosa. Cerca de 80% das chamadas que recebemos no nosso Disque Denúncia (22 2723 1177) é trote. Porque sem educação não se faz nada, e até o Disque Denúncia passa a ser instrumento de falta de educação, que é o trote. Então, apresentando aqui a situação realista de Campos, a questão da segurança pública não se remete somente a violência, ela está envolvida com as questões sociais também”, Sabino completa pontuando:

“Eu vi aqui as pessoas pedindo para salvar a cidade de Campos da violência. Eu digo salve o Brasil da violência. Pois das 30 cidades mais violentas do mundo, 11 são brasileiras e nem a cidade do Rio de Janeiro, nem Campos fazem parte dessa lista. Se eu pudesse colocaria um vídeo de nossos policiais andando nas comunidades de Campos e se deparando com nossos jovens, adolescentes e crianças em um completo abandono. Eu convido qualquer um dos senhores a andarem comigo nessas comunidades para verem essa realidade de perto. Então, como se pode falar em segurança quando nossos jovens estão em completo abandono ocioso, sem nenhuma perspectiva de vida? Então salve os nossos jovens de Campos e do Brasil. Um salve também para a nossa saúde de Campos e do Brasil, aonde as pessoas chegam aos hospitais e morrem sem assistência pública. Salve a justiça de Campos e do Brasil porque de 200 mil processos, hoje, existem 97 milhões deles, porque você entra hoje na justiça do país e no mínimo 10 ou 12 anos você tem uma sentença. Salve também a educação de Campos e do Brasil, porque hoje 37% dos nossos jovens universitários são analfabetos funcionais”.

“Salve também o Brasil do crack e da droga, porque a letalidade violenta acompanha o consumo de drogas. O nosso jovem está doente. Nós estamos sofrendo uma epidemia do crack no nosso país. E esse não é um problema só da Polícia Militar, é um problema de saúde pública, do governo, do estado, do município e da sociedade como um todo. É o usuário que faz o tráfico, e se nós começarmos a fazer uma política educacional séria, com todos os nossos políticos e autoridades públicas em cima dessa situação, muito do que a gente vê vai se tornar algo do passado”, recomenda o comandante.

GERALDO RANGEL: "SERÁ QUE TUDO É SÓ QUESTÃO DE POLÍCIA?"

Na mesma linha de pensamento do comandante Sabino, o delegado titular da 134ª Delegacia Legal, Geraldo Rangel disse que a questão da segurança pública não pode mais ficar restrita apenas a polícia. “Todos sabem que nós trabalhamos muito e lutamos contra essa realidade diariamente. Mas, será que os municípios e o governo federal estão efetivamente participando da segurança pública? Será que há essa integração? A questão do Disque Denuncia é muito bem vinda e tudo que for para agregar é bem vindo também. Mas, agora será que nossa cidade não tem a capacidade técnica e financeira de ter um sistema de câmeras de monitoramento de primeiro mundo? Eu acredito que sim”, questionou o delegado lamentando:

“Nós deveríamos aqui hoje ter representante do Ministério Público Estadual e do Poder Judiciário. Nós não temos plantão judiciário em Campos. Inclusive já aconteceu caso concreto de um colega que se reportou ao plantão judiciário da capital necessitando de uma apreciação de uma representação de prisão preventiva, o juiz da capital não recebeu o pedido, por ter sido por e-mail digitalizado. Então será que tudo é só questão de polícia? A culpa é de todos e a solução também é de todos”, frisou Geraldo Rangel.

"PRECISAMOS AJUDAR A POLÍCIA A TER CREDIBILIDADE"
Diferentemente das autoridades policiais presentes na sessão, o representante do Disque Denúncia do Rio, Jacques Zajdsnajde contou que está bastante animado, e segundo ele, o que se pode ser feito é ajudar para que a cidade de Campos tenha uma ferramenta no padrão que se foi aprendido na capital fluminense.

“Eu estou animado porque acredito que os problemas têm solução, e a solução começa pelo debate, entendendo o problema e apresentando propostas. Também peço desculpas ao coronel Sabino, mas a gente quase não tem trote, sabe por quê? Porque nós temos uma coisa que nós precisamos ajudar a polícia a ter que é credibilidade. Nossos atendentes são profissionais de atendimentos de denúncia. E nós valorizamos, nos esforçamos e nos empenhamos para valorizar a Polícia Militar, porque não tem solução na segurança pública sem uma polícia valorizada, respeitada e aplaudida pela população”, garantiu Jacques.

De janeiro a março deste ano Campos registrou 92 homicídios, sendo 24 em janeiro, 36 em fevereiro e 32 em março. “Nós tivemos um decréscimo em relação a letalidade violenta e roubo de rua, porque hoje o 8º Batalhão é o que mais apreende armas no Estado do Rio de Janeiro, e a cada 18 armas apreendidas se evita uma morte. São números do Instituto de Segurança Pública (ISP)”, concluiu o tenente coronel Sabino.

Participaram da audiência representantes da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Campos; Fundação Estadual Norte Fluminense (Fenorte); Associação dos Comerciantes e Amigos da Rua João Pessoa e Adjacências (Carjopa); Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), entre outras entidades; Guarda Civil Municipal, Ministério Público Federal; Polícia Rodoviária Federal; autoridades públicas; vereadores, além da sociedade civil.

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